Segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), braço da Organização Mundial da Saúde (OMS) nas Américas, de 3 a 4 milhões de pessoas poderão contrair o zika vírus em 2016 no continente americano. Desse total, 1,5 milhão de casos devem ser registrados no Brasil, onde as autoridades de saúde investigam a relação do zika com o aumento da ocorrência de microcefalia, anomalia que implica na redução da circunferência craniana do bebê, entre outras complicações, e a síndrome de Guillain-Barré, doença que atinge o sistema nervoso.
Zika é um dos vírus mais violentos transmitidos pelo Aedes aegypti, também responsável por passar dengue e a febre chikungunya, entre outras moléstias. Ele foi detectado em humanos no início da década de 1950, nas florestas da Tanzânia e Uganda. Não se sabe exatamente como se espalhou pelo mundo e chegou ao Brasil. Suspeita-se que sua entrada no País tenha se dado durante a Copa do Mundo de 2014, quando chegaram turistas de várias partes do mundo, inclusive de áreas tropicais com registro de contaminação pelo zika, como a África e a Polinésia Francesa, na Oceania. Apesar dos casos registrados nessas regiões, surtos epidemiológicos da doença como agora nunca haviam ocorrido.
Os primeiros casos confirmados de zika no Brasil aconteceram no Nordeste, no início de 2015. Ao longo do ano, os registros se espalharam para quase todo o País – apenas cinco estados não catalogaram casos autóctones: Acre, Amapá, Sergipe, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Estimativas do Ministério da Saúde (MS) indicam que no ano passado podem ter ocorrido entre 500 mil e 1,5 milhão de infectados pelo zika. A enorme variação de cálculo se dá pela dificuldade de confirmação da contaminação, uma vez que oito em cada dez infectados não têm sintomas e, portanto, descartam a ida ao médico, não gerando estatísticas. Assim, as estimativas para o zika se baseiam no numero de casos de dengue na América Latina, onde foram registrados 2,3 milhões de infectados.
Em novembro, o MS decretou Situação de Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional, medida que fora adotada apenas em 1917, com a ocorrência de gripe espanhola. Entre as atitudes tomadas, o MS criou o Plano Nacional de Enfrentamento ao Aedes e à Microcefalia com medidas emergenciais para intensificar as ações de combate ao mosquito. O plano estabelece políticas de forma articulada, com o envolvimento de vários ministérios e conta também com parcerias de estados e municípios, com o objetivo principal de combater o mosquito transmissor da dengue, chikungunya e zika. Para fortalecer esta articulação, foi instalada a Sala Nacional de Coordenação e Controle para o Enfrentamento à Microcefalia, que tem como principal objetivo gerenciar e monitorar a intensificação das ações de mobilização e combate ao mosquito em todo o País.
A sala é coordenada pelo MS e funciona no Centro Nacional de Gerenciamento de Riscos e Desastres da Secretaria Nacional de Defesa Civil (CENAD) do Ministério da Integração. Segundo o MS, o governo mobilizou todos os órgãos federais para atuar conjuntamente neste enfrentamento, além da participação dos governos estaduais e municipais na força tarefa. Equipes multidisciplinares de médicos, enfermeiros, farmacêuticos, entre outros profissionais de várias áreas da saúde, incluindo os serviços de Atenção Básica e Especializada, estão envolvidas diretamente nas campanhas.
“Um ponto crítico no combate às infecções causadas pelo Aedes é o diagnóstico dos casos suspeitos. Nesse sentido tem sido feito investimento no desenvolvimento e na aplicação de testes rápidos para o diagnóstico. A Vigilância Epidemiológica dos casos suspeitos, realizada pelo Ministério da Saúde, possibilitou a correlação entre o zika e a ocorrência de microcefalia. Há o desenvolvimento de cursos na modalidade de ensino a distância para preparar profissionais da saúde para a identificação, notificação e tratamento das febres transmitidas pelo mosquito. Outra iniciativa importante foi a criação da “Sala de Situação” para os gestores da saúde com o objetivo de organizar e divulgar iniciativas para o controle da dengue, zika e chikungunya”, destaca Josélia Frade, assessora da presidência do Conselho Federal de Farmácia (CFF) e diretora de desenvolvimento do Fórum Farmacêutico das Américas, organização que reúne associações farmacêuticas nacionais, a OPAS e a Federação Internacional Farmacêutica.
Contudo, a especialista revela que existem críticas ao modelo vetorial utilizado pelo MS. “Sanitaristas e pesquisadores membros da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) questionam o modelo de controle vetorial do Ministério da Saúde, que é baseado em estratégias que têm sido usadas para combater a dengue durante 40 anos, com eficácia questionável”, diz Josélia. Além disso, segundo ela, nota técnica da Abrasco destaca a falta de integração entre as ações das Vigilâncias Epidemiológica, Sanitária e a Promoção da Saúde e as consequências do uso de produtos químicos de controle vetorial para a saúde humana. Fala também da desarticulação entre as políticas urbanas e de saneamento, a deficiência em ações intersetoriais no contexto socioeconômico e ambiental, especialmente nas zonas socialmente vulneráveis.
Zika, um quase desconhecido
Ainda não se conhece muito sobre a zika, mas as investigações dos mecanismos de infecção avançam e a vacina contra a doença já está em fase experimental, em que pese só estar disponível à população entre três e cinco anos. “É só conhecendo o vírus que poderemos combatê-lo” afirma Lúcia de Noronha, patologista pediátrica associada da Sociedade Brasileira de Patologia (SBP) e professora de Medicina da PUC-PR, participante da pesquisa da PUC com o Instituto Carlos Chagas, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que pela primeira vez confirmou a capacidade do vírus de atravessar a placenta durante a gestação. “Com o estudo descobrimos que o zika é capaz de afetar os bebês através da placenta, ou seja, estamos compreendendo a fisiopatologia da doença, mas ainda temos muito a aprender sobre esse vírus”, diz Lúcia. “A possível correlação entre a infecção pelo zika e a incidência de microcefalia é uma questão séria e tem alarmado os gestores em saúde de toda a América Latina, com mais de 3.500 casos suspeitos registrados no Brasil entre outubro de 2015 e janeiro de 2016, em recém-nascidos de 684 municípios de 21 unidades federativas”, completa Josélia Frade.
No quadro atual de epidemia, todos os esforços para contenção da transmissão do zika são fundamentais. Por isso, lembra a SBP, a população precisa tomar providências contra o agente causador da doença. Eliminar focos de água parada, evitar viagens para os lugares com maior incidência do mosquito, usar repelente e roupas que cubram melhor o corpo, são alguns dos cuidados essenciais contra a propagação do mosquito e, consequentemente, das doenças causadas pelos vírus transmitidos por ele. Nesse contexto, o papel do farmacêutico é também muito importante. “No Brasil, somos cerca de 200 mil farmacêuticos atuando em mais de 70 áreas diferentes, e estamos espalhados pelos mais diversos pontos. Acredito que podemos ter um papel fundamental para esclarecer as dúvidas da população sobre as doenças provocadas pelo Aedes aegypti, por conta do conhecimento técnico e da questão geográfica”, afirma Marcus Athila, presidente do Conselho Regional de Farmácia do Rio de Janeiro (CRF-RJ).
“Os farmacêuticos são os profissionais da saúde mais próximos e acessíveis à população, por isso é importante que estejam engajados nessa luta, seja repassando aos pacientes as informações corretas de combate ao vetor, no esclarecimento quanto aos riscos da automedicação, até a orientação quando da necessidade de o paciente buscar pelos serviços de saúde”, frisa Ernestina Rocha, presidente do Conselho Regional de Farmácia do Estado de Goiás (CRF-GO). Uma questão comum entre as pessoas é se farmacêutico pode prescrever algum medicamento nos caso de suspeita de zika, dengue ou chikungunya. Marcela N. Silva Oliveira, coordenadora farmacêutica da Ultrafarma, esclarece que a orientação vale mais do que a indicação terapêutica. “O farmacêutico pode realizar uma entrevista com o paciente, para avaliar os sintomas que estão sendo relatados, sugerindo a avaliação médica. Em termos de medicação, vale observar que medicamentos à base de ácido acetilsalisílico e anti-inflamatórios não esteroidais (ibuprofeno e naproxeno) não devem ser utilizados em caso de suspeita de dengue. E o paracetamol em doses exageradas também pode ser prejudicial aos pacientes com suspeita de dengue, uma vez que podem ocorrer graves danos hepáticos.”
Cristiane Macedo Feijó, coordenadora técnica da Pague Menos, destaca também os cuidados com os repelentes que os farmacêuticos precisam passar aos clientes. De acordo com o Ministério da Saúde, três substâncias são capazes de afastar o Aedes aegypti: icaridina, IR3535 (etil butilacetilaminopropionato) e Deet (dietiltoluamida). “O problema maior são as crianças. Os repelentes à base de icaridina são os mais indicados para os pequenos, em especial para os que têm menos de dois anos, porque ele tem maior tempo de duração na pele”, revela Cristiane, que, contudo, faz uma ressalva. “Já para aqueles que têm menos de seis meses nenhum composto é indicado com segurança, pois pode provocar intoxicação, uma vez que a pele do bebê é muito sensível e sua área corporal é pequena, o que aumenta mais rapidamente a absorção. Nesses casos, a melhor opção é a barreira física, como telas e cortinas nas janelas, de forma a impedir a entrada dos mosquitos.” Em determinados casos, tendo em vista os riscos de contágio em algumas regiões do País, médicos estão liberando o uso da icaridina para crianças menores de um ano, desde que sejam acompanhadas regularmente.
Farmacêutico no foco
“Entendemos o farmacêutico como um profissional de saúde chave para a educação e orientação da população, prestando informações confiáveis em relação à doença –transmissão, sinais e sintomas, diagnóstico e necessidade de notificação compulsória, evolução clínica e possíveis complicações relacionadas – e orientando medidas práticas para prevenção e manejo sintomático”, sublinha Josélia Frade. “Lembramos que muitas informações inverídicas têm sido propagadas pela mídia, com especulações relacionadas a outras origens etiológicas dos casos de microcefalia, por exemplo, e essas podem causar estado de pânico na população. É dever do farmacêutico ser referência para a população neste momento, e o CFF está preparando o profissional para isso, com a divulgação de documentos oficiais”, diz a assessora.
De acordo com Josélia, o CFF estabeleceu um grupo de trabalho, composto por especialistas da área epidemiológica, para elaboração de materiais tecnocientíficos para os profissionais de saúde e pacientes. “Elaboramos recentemente um folder educativo para o farmacêutico, com informações essenciais quanto à identificação de sinais e sintomas diferenciais da dengue, zika e chikungunya, medidas preventivas e gestão sintomática dos casos já diagnosticados. Um folder análogo foi elaborado para o paciente, com linguagem simples e orientações confiáveis”, revela Josélia, destacando que se encontra em fase de elaboração um protocolo de prática clínica voltado à dengue, zika e chikungunya, que irá ajudar o farmacêutico a selecionar a melhor conduta, de acordo com as necessidades apresentadas pelos pacientes.
O CRF-RJ informa que tem várias ações de esclarecimento sobre o combate ao Aedes aegypti programadas, entre elas, está a participação no Dia Nacional da Mobilização contra o mosquito, 19 de março, com a palestra "O manejo clínico do paciente com dengue, chikungunya e zika” e a distribuição da cartilha de orientação aos farmacêuticos produzida pelo CFF. “Nosso objetivo é transformar cada farmácia num ponto avançado de combate ao Aedes aegypti. Muitas vezes o farmacêutico é o primeiro procurado por pacientes com zika, dengue ou chikungunya. E isso ocorre devido ao acesso fácil nas farmácias. Vamos usar isso no combate ao mosquito”, sublinha Marcus Athila. Já o CRF-GO disponibilizou no site e na redes sociais um folheto eletrônico com informações e orientações de combate ao mosquito, bem como orientações sobre sinais e sintomas da dengue, febre chikungunya e zika. Em janeiro, o CRF-GO realizou palestra sobre as doenças transmitidas pelo Aedes aegypti, “O papel do farmacêutico no contexto atual”, e programou para 18 de março outra palestra: “Orientações farmacêuticas em casos suspeitos de dengue, chikungunya e zika”. Além disso, participa da campanha do CFF “Farmacêuticos em Ação - Todos contra o Aedes Aegypti”.
Em dezembro de 2015, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou uma resolução autorizando a comercialização de autotestes de HIV em farmácias e drogarias com o objetivo de incentivar o diagnóstico e o início precoce do tratamento, antes mesmo de surgirem os primeiros sintomas da doença.
De acordo com o novo Boletim Epidemiológico de HIV e Aids de 2015, lançado pelo Ministério da Saúde (MS) no fim do ano passado, a epidemia no Brasil está estabilizada, tendo registrado a maior queda dos últimos 12 anos na taxa de detecção: 9%, passando de 21,6 casos por 100 mil habitantes, em 2003, para 19,7 por 100 mil habitantes em 2014. Isso representa cerca de 40 mil casos novos ao ano. Desde o início da epidemia, em 1980, até junho de 2015, foram registrados mais de 798 mil casos. Pesquisas indicam que o Brasil foi o país que mais derrubou a taxa de detecção no mundo.
O quadro epidemiológico varia entre os estados. No Amazonas, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, a epidemia é maior do que no restante do País. Nas capitais, ela também prevalece, em parte por concentrarem os serviços de atendimento a portadores do vírus HIV. E a tendência de “feminização” da epidemia não aconteceu: a relação é de dois homens para uma mulher infectada. Isso se deve ao crescimento do número de homens que fazem sexo entre si sem usar preservativos.
Epidemia cresce entre jovens
O maior desafio do MS agora é conter a epidemia entre jovens, que estão se expondo mais ao vírus porque se recusam a usar camisinha. Em 2004, a taxa de detecção em pessoas de 15 a 24 anos era de 9,5 casos a cada 100 mil habitantes, o que equivale a 3,4 mil casos. Já em 2014, esse número foi de 4,6 mil, representando um taxa de detecção de 13,4 casos por 100 mil habitantes, um aumento de 41%.
“Esse é um fenômeno geracional que tem nos preocupado. Vários podem ser os fatores que levam a esse crescimento. Trata-se de uma geração muito mais liberal do que a anterior em relação às questões sexuais. Além disso, é uma geração que não viveu o auge da epidemia de Aids nos anos 1980, quando muitos ídolos da juventude morreram de forma dramática”, avaliou o diretor do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais, do MS, Fábio Mesquita, que esteve no Rio de Janeiro, em um evento promovido pelo Conselho Regional de Farmácia do Estado do Rio de Janeiro (CRF-RJ), com o apoio da Associação Brasileira de Farmacêuticos (ABF), em janeiro.
Atualmente, 90% das pessoas em tratamento pelo Sistema Único de Saúde (SUS), no Brasil, estão com a carga viral suprimida, ou seja, próxima de zero. Isso significa dizer que não é possível detectar ou determinar a quantidade de vírus presente no plasma sanguíneo, apesar de a pessoa ainda permanecer infectada.
Por outro lado, 25% das pessoas têm diagnóstico tardio, com alto comprometimento da imunidade. Segundo pesquisas, um a cada cinco indivíduos desconhece que tem o HIV. É esse dado que o MS quer atacar com o autoteste vendido em farmácia, única possibilidade que ainda não era permitida no Brasil. “O autoteste é uma opção para pessoas que não querem fazer o exame na frente de estranhos e mais uma opção possível para que elas conheçam seu estado sorológico”, disse o diretor do MS. Segundo ele, o autoteste promove o empoderamento individual nas decisões de saúde, permitindo que o indivíduo decida onde, quando e como testar.
Os riscos do autoteste
Desde que a RDC 52/15 foi publicada, autorizando a comercialização do autoteste, representantes de entidades farmacêuticas e profissionais de saúde em geral passaram a apontar diversas questões associadas à venda, ao comportamento emocional do paciente, ao acesso às estatísticas e à contribuição da farmácia e do farmacêutico nesse novo contexto de controle da epidemia de Aids no Brasil. Entre as preocupações estão a tentativa de suicídio depois de um resultado positivo ou a possibilidade de a pessoa infectar outras propositalmente, numa atitude de protesto e revolta. O MS informou que não existem, em nenhum lugar do mundo, indicadores dramáticos, como o suicídio, relacionados ao autoteste de HIV.
Segundo a psicanalista carioca Madalena Sapucaia, a estrutura psíquica de uma pessoa e a maneira com que ela lida com o que acontece em sua vida é anterior a qualquer doença contagiosa. “O suicídio tem a ver com isso e não com o que de grave pode acontecer com alguém. Também acho preconceituoso pensar que um paciente contaminado se torne um perverso e passe a contaminar outras pessoas. Se há um sujeito perverso, como disse, isso é anterior a qualquer contaminação e acontece com infinitas outras situações sociais. Não se deve achar que só quem tem HIV pode ter um comportamento perverso. Além disso, o uso de preservativo é responsabilidade de cada um e não de quem está com o vírus apenas. O portador de HIV nunca deve ser estigmatizado como agente de contaminação”, analisou Madalena.
Alexandre Nabor Mathias França, psicólogo e membro do Conselho Regional de Psicologia do Rio de Janeiro (CRP-RJ), participou do evento do CRF-RJ e também comentou o assunto. Segundo ele, apesar de menos gente morrendo de Aids, houve aumento no índice de pessoas portadoras do vírus HIV com depressão. “Hoje em dia, vive-se mais, mas o doente precisa ter orientação sobre como viver bem com a doença. No entanto, permanece a escassez de programas voltados à informação. Os hospitais e as UPAs, por exemplo, precisam de mais psicólogos dando suporte, para que os pacientes possam enfrentar melhor a questão”, salientou.
Luiz Fernando Barcelos, diretor executivo da Sociedade Brasileira de Análises Clínicas (SBAC), é categórico: “Não achamos que o autoteste vá agregar qualidade ao atendimento de saúde”, disse. Na opinião da entidade, testes para detectar HIV devem ser feitos em ambientes de saúde e sob a supervisão de profissionais treinados. Dessa forma, é possível reunir estatísticas, controlar resultados errados, como um falso-negativo ou um falso-positivo, e dar suporte adequado ao paciente.
A infectologista Cydia Alves Pereira de Souza é a favor do autoteste porque quanto mais pessoas tratadas, menor será a taxa de infecção. Mas, em contrapartida, diz que precisa haver um serviço de acolhimento às pessoas que tiverem um resultado positivo. “No Brasil, onde o acesso aos serviços de saúde é muito precário, particularmente em algumas regiões, me preocupa que farmácias e drogarias vendam esses testes”, alertou.
O papel da farmácia
Os autotestes têm uma sensibilidade de 99,8% na detecção do vírus, contra 99,9% dos testes realizados em laboratório. Em geral, o que se espera é que a pessoa entre na farmácia, peça o autoteste, pague e vá embora. A intenção do MS é que o procedimento seja realizado em casa, com privacidade, conforto e segurança. A resolução da Anvisa não prevê que o autoteste seja feito na farmácia com acompanhamento farmacêutico. É provável que o constrangimento impeça o indivíduo até mesmo de pedir orientação sobre o uso do produto.
No entanto, a farmácia deve se preparar para situações imprevistas. E se a pessoa pedir ajuda para fazer o autoteste? E se quiser aconselhamento farmacêutico? E se voltar ao estabelecimento com um resultado positivo em mãos? São muitas as perguntas ainda sem resposta definitiva, mas há quem já defenda um ponto de vista. “Se houver demanda, farmácias e drogarias terão de capacitar os profissionais e remodelar o espaço, criando, por exemplo, salas privativas para atender às pessoas que quiserem fazer o autoteste na farmácia e com o auxílio de um farmacêutico. Manter uma lista com os locais de atendimento a pacientes soropositivos também pode ser útil”, pontuou Ricardo Lahora, farmacêutico e proprietário de farmácia. Vale citar que os fabricantes são obrigados pela RDC 52 a disponibilizaram em número de telefone gratuito para atendimento.
Segundo Ricardo, o sigilo deve ser garantido, por isso a necessidade de existir um local específico para orientar a pessoa sobre como fazer o teste em casa. “Penso que o atendimento deverá ser realizado exclusivamente pelo farmacêutico. Muitos colegas são especializados em Farmácia Clínica, o que vai ajudar bastante. Porém, entendo que precisamos nos capacitar também em outras áreas do conhecimento, como direito, para nos precaver em relação a processos contra a farmácia; psicologia, para entender o paciente quanto à insegurança diante de um resultado positivo; e semiologia, para compreender melhor as manifestações clínicas da Aids e esclarecer as possíveis dúvidas do paciente”, acrescentou o farmacêutico.
Uma das grandes preocupações do MS e da Anvisa é quanto à janela imunológica estendida do autoteste. As pessoas precisam ser informadas dos riscos de um falso-negativo. Por isso, as instruções de uso devem ser bastante claras e em linguagem acessível. Nesse ponto, a farmácia deve tomar cuidado para não dar instruções equivocadas, pois pode ser processada como corresponsável, juntamente com o fabricante, por resultados errados. Para minimizar esses riscos, CRF-RJ e a ABF defendem a criação de Procedimentos Operacionais Padrão (POPs).
Estados Unidos, Reino Unido e França já vendem autotestes em farmácias. No Brasil, não se sabe dizer quando estarão disponíveis as primeiras unidades. Até o fechamento desta edição, a Anvisa ainda não havia recebido nenhuma solicitação de registro. O preço do produto também não foi definido, mas pode custar entre 100 e 120 reais. Nos Estados Unidos é vendido por cerca de 60 dólares.
A opinião de um soropositivo
O autor do blog Diário de um Jovem Soropositivo, que descobriu ser portador do vírus num exame de rotina, em 2010, é a favor do autoteste por duas razões. A primeira é a possibilidade que o autoteste oferece de ampliar o número de diagnosticados. “Uma vez que o tratamento antirretroviral ajuda na redução do risco de transmissão do HIV, o autoteste acaba sendo fundamental no controle da epidemia no mundo”, disse, em entrevista por e-mail, mantendo o anonimato. A segunda razão seria desmistificar o HIV e o autoteste. Com o tratamento antirretroviral atual, disponível gratuitamente em todo o Brasil, ter HIV não é, nem de longe, o que foi no começo da epidemia. “Ainda assim, a imagem dos anos 1980 é a que permanece no imaginário da maioria das pessoas. É importante mudar isso porque, com menos receio do HIV, as pessoas costumam ter mais coragem para fazer o autoteste e, com diagnóstico positivo, começar o tratamento antirretroviral mais cedo, o que ajuda a manter esse indivíduo saudável e, como disse antes, a controlar a epidemia no mundo”, defende o autor do blog.
Vantagens e preocupações da RDC 52/15, que autoriza a venda de autoteste de HIV em farmácias e drogarias:
| VANTAGENS | PREOCUPAÇÕES |
| Alta aceitabilidade | Janela imunológica estendida |
| Acesso ampliado ao diagnóstico | Resultados falso-negativos durante fase aguda da infecção |
| Facilidade de repetição do teste | Resultados falso-positivos e suas consequências |
| Confidencialidade e privacidade | Monitoramento |
| Testagem mútua entre parceiros | Uso adequado do produto |
| Desestigmatização da doença | Claro entendimento dos resultados obtidos |
Fonte: Anvisa
Saiba quais países comercializam autotestes em farmácias
EUA: 2012
Inglaterra: 2014
África do Sul: 2015
Holanda: 2013
Quênia: 2011
França: 2015
China: disponível somente em Macau e Hong Kong em 2005
Austrália: 2014
Fonte: Comunicação Ascoferj - notícia publicada em 11 de março de 2016
O Conselho Regional de Farmácia do Estado do Rio de Janeiro (CRF-RJ) promoveu um simpósio sobre os benefícios e riscos da comercialização de autotestes de HIV em estabelecimentos farmacêuticos.
Os debates contaram com a presença de Fábio Mesquita, diretor do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais, no Ministério da Saúde, e Augusto Bencke Geyer, gerente da Gerência de Produtos Diagnósticos de Uso In Vitro da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
A comercialização dos autotestes foi autorizada pela Anvisa, a partir da publicação da RDC 52, no fim de 2015, mas eles ainda vão demorar alguns meses para chegar ao ponto de venda porque precisam ser registrados na Anvisa. E, até o momento, nenhum fabricante abriu processo de registro.
Ministério da Saúde (MS) e Anvisa liberaram a venda em farmácias e drogarias porque querem ampliar o acesso ao diagnóstico e aumentar o controle da infecção por HIV no Brasil. Além disso, o diagnóstico precoce melhora a qualidade de vida do paciente. A maioria das mortes por Aids é atribuída ao diagnóstico tardio. O paciente vai viver mais e melhor se começar o tratamento mais cedo. Segundo pesquisas, um em cada cinco indivíduos desconhece que é portador do vírus.
“Existe um nicho específico para o autoteste, não é para todo mundo. É para quem está no grupo de risco e quer privacidade. Sobre a preocupação de a pessoa tentar o suicídio diante de um resultado positivo, não existe nenhum indicador dramático em nenhum lugar do mundo”, comenta o diretor do MS, Fábio Mesquita.
Outra dúvida é quanto ao preço do produto. Nos Estados Unidos, custa em torno de 60 dólares. No Brasil, a Anvisa estima que o autoteste seja por vendido por 120 reais, mas ainda não é possível determinar com precisão.
A classe farmacêutica é favorável à decisão da Anvisa, mas pondera sobre o preparo das farmácias e dos farmacêuticos. Na prática, o consumidor apenas vai comprar e realizar o teste em casa. Mas e se ele pedir orientação ao farmacêutico? E se voltar à farmácia com um resultado positivo?
O diretor executivo da Sociedade Brasileira de Análises Clínicas (SBAC), Luiz Fernando Barcelos, considera a medida da Anvisa desnecessária. “Defendemos que esse tipo de diagnóstico deve ser feito num ambiente de saúde, com pessoas treinadas. De jeito que foi proposto, vamos perder as estatísticas. Não haverá nenhum controle”, alerta Barcelos.
A norma da Anvisa exige que os fabricantes coloquem à disposição um telefone gratuito para atendimento 24 horas, mas, para profissionais da área, isso pode não ser o suficiente. Muitas perguntas sem respostas. Leia, na Revista da Farmácia de março, uma reportagem completa sobre o assunto.
Fonte: Ascoferj

Ao buscar na história informações sobre as primeiras farmácias e farmacêuticos, o que se encontra são relatos que remetem às boticas, surgidas no século 10 na França e Espanha, período em que farmácia e medicina eram uma coisa só. Aliás, as boticas foram modelos de negócio que deram início ao formato das farmácias como conhecemos hoje. Segundo informações do Conselho Regional de Farmácia do Estado de São Paulo (CRF-SP), os árabes fundaram, no século 2, a primeira escola de farmácia de que se tem notícia, criando inclusive uma legislação para o exercício da profissão.
No Brasil, o boticário surgiu no período colonial, quando medicamentos e outros produtos com fins terapêuticos podiam ser comprados nas boticas. "Inicialmente é importante lembrar que o farmacêutico no Brasil, desde a chegada da corte imperial de D. João VI, exerce o mesmo papel de sempre, ser um profissional do medicamento e voltado para a prática da saúde de qualquer população. Após a Segunda Guerra Mundial, o País se industrializou e o papel do farmacêutico, antes como boticário, passou a ser exercido em novas indústrias farmacêuticas, as quais passaram à industrialização do medicamento. Então esse profissional passou a ter formação no âmbito da produção de medicamentos em grande escala e, principalmente, na pesquisa de desenvolvimento de novos fármacos e de novas formulações advindas de tecnologias que foram avançando a cada década desde então", explica o diretor da Faculdade de Farmácia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), professor Gerson Antônio Pianetti.
Segundo Pianetti, hoje se vê o farmacêutico como o mais importante profissional na cadeia médica por ser o responsável pela dispensação do medicamento e orientação do paciente. "Apesar de continuar a manipular os medicamentos sob prescrição, o farmacêutico é a última instância entre o medicamento e o paciente, e uma orientação inadequada ou a falta dela poderá trazer enorme prejuízo sanitário ao cidadão devido à utilização inadequada do medicamento", completa.
O professor ainda ressalta que um dos maiores desafios dessa classe de profissional é fazer com que a sociedade o reconheça e sinta a sua importância. "Quando se pergunta ao cidadão comum qual o papel do farmacêutico, ele certamente diz que é o de entregar um 'medicamento'. Essa cultura está cada vez mais sendo deixada para trás após grande parte de a sociedade ter conseguido enxergar no farmacêutico o profissional de saúde mais próximo de si", avalia.
CONHECIMENTO ESPECÍFICO
Entre todos os profissionais de saúde, o farmacêutico é aquele que possui a excelência do conhecimento sobre todos os aspectos que envolvem o medicamento e também o profissional mais acessível à população.
"Se levarmos em consideração que o Brasil é o país em que a população mais se automedica no mundo e que a principal causa de internação no Sistema Único de Saúde (SUS) por intoxicação é o medicamento, podemos facilmente mensurar a importância desse profissional no cuidado à saúde da população, desde a prevenção, proteção, até a sua total recuperação", comenta o presidente do Conselho Regional de Farmácia do Rio de Janeiro (CRF-RJ), Marcus Athila.
Para ele, por meio da orientação farmacêutica, esse profissional pode atuar desde uma simples orientação acerca do cumprimento da farmacoterapia prescrita, os possíveis efeitos adversos, interações medicamentos e, até mesmo, sobre a importância da adesão ao tratamento. "Pode também, o profissional farmacêutico, após criteriosa avaliação, prescrever terapias farmacológicas e não farmacológicas, conforme determina a Resolução 586 do Conselho Federal de Farmácia (CFF)", diz.
A palavra orientação é uma das que mais definem boa parte do trabalho do farmacêutico em seu dia a dia. Para o diretor executivo da Associação Brasileira de Distribuição e Logística de Produtos Farmacêuticos (Abradilan), Geraldo Monteiro, o trabalho do farmacêutico se complementa ao do médico.
"É o farmacêutico quem vai orientar o paciente em relação à administração do medicamento, aos riscos, às interações medicamentosas, entre outros. Tudo com o objetivo de melhorar a saúde do indivíduo. A questão da falta de adesão ao tratamento de doenças crônicas é cultural no Brasil, falta uma educação de base nesse sentido e o farmacêutico tem muito a contribuir com essa conscientização", comenta Monteiro.
ADESÃO AO TRATAMENTO
Pacientes portadores de doenças crônicas demandam atenção mais do que especial, principalmente no que diz respeito ao entendimento da patologia, da ação dos medicamentos, a possíveis interações com outros medicamentos, reações adversas e efeitos colaterais e, fundamentalmente, sobre a importância da adesão e não interrupção do tratamento sem consentimento médico. Tudo isso pode ser realizado dentro da farmácia, pelo farmacêutico.
Cada dia mais esse profissional assume o papel de agente promotor da saúde, contribuindo para maior conscientização e educação dos pacientes sobre suas doenças. Segundo dados da Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma), o abandono do tratamento do colesterol cresceu 240% nos últimos 18 meses no Brasil. Em média, 58% da população não adere aos tratamentos contra doenças gástricas e 50% faz o mesmo quando o assunto é o diabetes.
Para Athila, a adesão ao tratamento é o fator mais importante para o controle efetivo de muitas doenças, ainda mais quando se trata de um paciente portador de uma doença crônica, que deve receber tratamento constante. "Muitos pacientes interrompem ou diminuem o tratamento de longo prazo de sua doença à medida que essa é controlada ou quando percebem uma melhora da doença. Também há uma dificuldade quando se trata de doenças assintomáticas, como a hipertensão arterial em seu estágio inicial. Outro fator dificultador é o de múltiplas exigências, como tratamentos que combinam um número variados de medicamentos ou que produzem efeitos adversos", comenta.
Para ele, a relação humanizada durante uma consulta farmacêutica proporcionará ao paciente uma percepção correta de seu estado de saúde e a importância do tratamento. "O farmacêutico, com sensibilidade e conquistando a confiança do paciente, vai auxiliar este a compreender a importância de seguir corretamente o tratamento necessário, bem como na adoção de hábitos de vida saudáveis com o intuito de promover o controle e a prevenção de agravos de sua doença", diz.
Esse novo cenário da farmácia, sendo vista não como um ponto comercial, mas, sim, como um estabelecimento de saúde, está certamente mudando o perfil do farmacêutico. Mas para o presidente do Conselho Regional de Farmácia do Estado de São Paulo (CRF-SP), Pedro Menegasso, isso não é de agora.
"Desde 2002, as Diretrizes Curriculares para o Curso de Farmácia, instituídas pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC), já preconizavam um perfil que incluía a atuação do farmacêutico nos diversos níveis de atenção à saúde, desenvolvendo Atenção Farmacêutica individual e coletiva. Percebemos que os cursos de graduação de farmácia buscam formar farmacêuticos aptos a atuar diretamente e clinicamente com os pacientes. Além disso, se olharmos para outros ramos de atividade, como, por exemplo, a farmácia hospitalar, podemos verificar um amplo crescimento de farmacêuticos atuando clinicamente", comenta Menegasso.
Segundo ele, a partir do momento em que o estabelecimento se propõe a ser um prestador de serviços em saúde, a relação com o cliente se estenderá ao uso correto de seus produtos e ao sucesso do tratamento proposto. "Uma das premissas para o sucesso do tratamento é a adesão do paciente. Tecnicamente, para atingir o sucesso do tratamento, é necessário assegurar o que chamamos de 'otimização dos processos da farmacoterapia', esta otimização inclui a melhor seleção da terapêutica, a administração correta dos medicamentos e a adesão aos medicamentos pelo usuário", diz.
Menegasso acrescenta que diversos estudos controlados, testando o impacto do cuidado farmacêutico, já foram realizados no Brasil. "A evidência mostra benefícios desses serviços para a adesão ao tratamento, para a satisfação dos usuários e para os resultados do uso dos medicamentos em diversos grupos de usuários. A maioria desses estudos foi realizada em ambiente ambulatorial ou em farmácias comunitárias", conta.
Matéria publicada na revista Guia da Farmácia nº 278/ Jan-2016; pág. 45